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02/01/2017

Me desculpe, eu não posso só “parar” de me sentir assim

Me desculpe, mas eu não posso apenas parar de me sentir assim. Eu estou vinte e quatro horas por dia tentando diminuir esse sentimento terrível de tristeza, inferioridade e fundo do poço, mas eles não se vão embora. Eu sinto como se a minha depressão estivesse, a cada dia mais, me afundando em um riacho. Porém, ela não me leva, ela apenas me largou em uma correnteza com um um peso nos pés, me condenando a viver com o tal sofrimento. Eu forço os meus braços e busco forças onde não existe mais. A correnteza só aumenta.

O peso que puxa meus pés para o fundo do riacho é equivalente ao que sinto em meus ombros. Eu carrego o peso do mundo comigo e eu sei que eu não devia, mas como parar? Não me diga para parar de sentir assim, se fosse tão simples  eu estaria completamente leve, plena e nadando no riacho, em busca da felicidade.

Mas eu não estou, você não vê? Eu estou encurralada em um caminho sem saída, no qual eu sou puxada para o fundo a cada dia mais. A água que corre ao meu redor é gelada como tomar picolé em um dia frio – ela me machuca. Eu me sinto presa, apesar de ter os braços livres e poder gritar. Existem alguns dias em que eu sinto borboletinhas no meu estômago, as mesmas carregam a esperança e me dizem que vai ficar tudo bem. Nos outros, eu apenas sinto monstros na minha mente, eles querem me derrubar.

Eu entendo que você queira me ajudar e que possa não saber muito o que dizer, já que o estado em que me encontro é indecifrável para ti. Mas eu te peço, por favor, não me diga que eu devo apenas parar de sentir isso. Quando alguém fala isso, a minha vontade é de apenas ser puxada pela correnteza. É cansativo ser incompreendida e ainda mais saber que as pessoas que se sentem como eu não recebem a empatia necessária.

Me abrace, diga que tudo bem, que eu não tenho culpa em me sentir assim, que você vai estar comigo apesar de e para tudo. Talvez eu só precise de alguém que segure a minha mão enquanto a correnteza está tão forte.

Para ouvir enquanto lê: Smother – Daughter

depressao-parar-de-me-sentir

fotografia por Katie Joy

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Liz Chollet

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08/12/2016

Eu só tenho a certeza de que não sei quem sou – e tá tudo bem

a certeza de nao saber quem sou

Aos meus cinco anos, escutei de meus pais: ‘o que você quer ser quando crescer?’. Veterinária, eu disse, quero cuidar dos animais! E então eu desenhei a planta do meu consultório com todo o cuidado e amor possível. Três andares: um para mim, um para minha prima e um para a clínica, é claro. Ah, eu só iria fazer a parte legal, certo? Sem cirurgias pro meu lado, disso eu tinha certeza.

Aos dez, me descobri uma possível pintora. Era um segredo, mas eu queria vender quadros lindos como os de Van Gogh e também passar a mesma aura que Da Vinci conseguiu com sua pintura. Eu gostava de Rebeldes, sonhava em ter a voz bonita como a da Roberta e namorar um cara lindo como o Diego.

Já aos doze, eu não pensava sobre profissões. Talvez, naquela época, eu apenas vivia sem essa preocupação severa. Restart dominava o meu coração e NX Zero tocava a mil na malhação, minha novela favorita. Eu não tinha certeza do que eu queria, mas eu sabia do que eu gostava de fazer para aproveitar a vida, e quem sabe essa tenha sido uma das melhores épocas da minha vida.

Aos catorze, a dúvida bate na porta novamente: o que você quer ser? “Eu não sei, e você?” Na minha cabeça, o que sempre ecoou foi ‘eu quero ser gente’, mas só isso eu não posso ser. Pressão, pressão e mais pressão. Por que a pressão de definir tudo tão cedo? Por que devemos ganhar tanto dinheiro? Por que devemos ser conhecidos? Por que não podemos apenas viver?

Ensino Médio. Estudos, estudos e estudos. Testes vocacionais, livros sugeridos por tal faculdade e muito simulado. Mas, espera, o que eu quero ser? Arquiteta, psicóloga, designer, historiadora, jornalista ou publicitária? Eu nunca soube responder a temida pergunta, eu nunca soube o que eu realmente quero ser.

Das telas de Van Gogh aos livros de história, o meu desejo não era e nunca foi descobrir o que eu queria ser, e sim quem eu queria ser. Descobrir isso, claro, é desafiador e, segundo alguns, não existe possibilidade, já que estamos em constante transformação. Mas, sabe, é justamente isso que me encanta em me descobrir: eu gosto de estar em transformação a cada segundo, de sentir o sangue correr por minhas veias e saber que eu estou, com certeza, mudando. Hoje eu posso amar cinema, cursar fotografia e estar lendo um livro sobre a segunda guerra mundial. Amanhã posso cursar filosofia, amar animes e estar lendo um livro sobre cozinha italiana.

Nós não precisamos definir o que queremos cursar, no que queremos trabalhar e como vamos seguir a vida já quando crianças, muito menos quando pré adolescente e se não estivermos nos sentindo bem, nem quando jovens. Tá tudo bem seguir em frente assim. Se descubra, se conheça e se transforme quantas vezes for necessário. Hoje, eu só tenho a certeza de que eu não tenho certeza de quem eu sou – e tá tudo bem nisso. A essência da vida é a gente ser gente.

Vale a pena assistir: A gente nasceu pra ser gente

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Liz Chollet

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