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23/12/2016

A falsa representatividade em ter uma gorda na playboy

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Ser mulher em um mundo machista é bem complicado. Estamos constantemente preocupadas e irritadas com o nosso próprio corpo, sempre iremos achar algo para não gostar em nós mesmas – e isso, eu repito, não é nossa culpa. Crescemos com regras ditadas sobre como nos vestir, agir e falar. Todas nós crescemos com problemas de autoconfiança, se você é mulher e está lendo isso, sabe bem do que eu estou falando. Acima disso tudo, a regra principal desse jogo que manipula a nossa mente é: devemos ser magras. Senão, sem chance. Você já está fora.

Acredito que a principal dor de ser gorda em um mundo repleto de padrões e ditaduras de beleza, é a de que nós somos excluídas por isso. Você está literalmente fora de tudo. O emprego, que na maioria das vezes é mais complicado para mulheres, se torna ainda mais difícil de alcançar, já que não temos o corpo que a empresa quer mostrar. As pessoas se afastam, dão risada e sentem pena. Para elas, somos apenas cartas foras do baralho.

Quando se é gorda, você não é representada em comerciais de televisão, propagandas de lojas e é muito menos vista como um ser que possui sensualidade e desejo sexual. Eu me pergunto: a minha gordura me impede de sentir? Na última semana a Playboy anunciou uma edição com uma gorda na Playboy, na capa. Essa mulher é Fluvia Lacerda, uma blogueira linda e que trata basicamente sobre moda plus size. De cara, você pode pensar: nossa, que incrível, depois de tanto tempo a Playboy vai aceitar outros corpos, desmitificar isso e fazer uma edição com uma mulher gorda! Mas, calma, nós precisamos analisar isso.

gorda na playboy

A objetificação sobre uma gorda na playboy

A playboy é uma revista de foco fetichista, voltada ao público masculino, portanto, o papel da revista é vender o corpo da mulher, simples assim. A empresa vai capitalizar em cima dos corpos nus femininos e quer nos fazer sentir incluídas. O fato é que incluir uma mulher gorda na playboy não vai acabar com o machismo exercido pela revista – e muito menos com o da sociedade, esse só irá ser alimentado. Ao incluir mulheres gordas, a playboy apenas continua objetificando o corpo de uma mulher, reduzindo-o a algo que deve satisfazer o homem. A neo playboy encontrou nesse nicho do “vamos botar garotas diferentes na capa” uma nova sobrevida e, principalmente, uma forma de vender mais, uma vez que muita gente vai comprar em nome dessa dita “representatividade”.

Sabe aquele caso recente da fábrica de móveis em que faziam fotos com modelos magras sensualizando para vender cadeiras? A modelo pode estar ali? Claro que pode, mas do modo com que ela foi colocada pela revista, está apenas contribuindo para as pessoas reforçarem o discurso de que lojas podem continuar vendendo as coisas colocando uma mulher padrão em cima delas e que isso não é objetificação.

Eu sou gorda, sempre fui. Entendo muito bem o quanto queremos ser representadas, incluídas e desmitificadas, então entendo quando alguma mulher gorda compartilha essa notícia e fica feliz. Mas não é assim que devemos ser representadas! Isso deve acontecer porque somos pessoas, apenas pessoas com corpos normais. Aliás, há quem diga que essa seja uma forma de naturalizar a pessoa gorda, mas existem tantas maneiras de fazer isso que, apoiar a playboy acaba sendo ridículo. Quer nos naturalizar? Mostra que somos pessoas, nos de protagonismo em séries, filmes e novelas, nos de voz e nos ajude a sair dessa correnteza terrível que é a gordofobia.

Uma outra questão que foi bem debatida foi a de que a gorda na playboy importa porque mostra que gordas “podem ” ser bonitas e sexy. Como assim, podem? Nós somos bonitas e sexys, não precisamos reforçar e repetir isso para que as pessoas entendam. Não é nos colocando nuas e e sensuais que queremos respeito dos outros, queremos respeito simplesmente por ser gente, como todo mundo. Não quero, aqui, criticar a Fluvia, essa mulher é incrível! Quero apenas trazer para a reflexão de todos a questão da objetificação e de qual caminho estamos trilhando nisso tudo.

Como disse Patrícia Galvão: “o que a gente quer mesmo e precisa é que todas as mulheres sejam livres, que seus corpos sejam livres, livres do olhar torto, livres do julgamento, livres da opressão e dá exploração, do controle da religião e do estado. Livres pra serem o que quiserem. Não queremos ser nem objetificadas, nem nicho de mercado para vender revistas e padrões de beleza, queremos ser livres.”

Links úteis: libertem nossos corpos | A falácia da liberação sexual e as novas formas de dominação

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Sobre o Autor

Gaúcha, 18 anos, estudante de fotografia, louca por seriados e apaixonada pela arte. Quer saber mais sobre mim e o blog? Clique aqui

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Comentários

  1. Oiie!

    Concordo com o que você falou! Acho que uma das barreiras que mais precisamos derrubar é a de achar que a mulher é um objeto. 🙁

    Beijos

  2. Paola Costa disse:

    Olha.. eu não tinha parado pra pensar nesse ponto de vista.. recentemente a primeira mulher negra foi capa de uma playboy tb, e foi a mesma coisa.. “nooossa, uma mulher negra na capa dá.playboy..” Mas é vdd, isso seria ficar feliz com algo que já era ruim…
    Bjs!

  3. kamii disse:

    Ótimo texto Liz! Lindo mesmo! Não é meu lugar de fala mas acredito como você disse que não é por ai que devam ser as conquistas, sendo só um corpo, e sim tendo protagonistas e espaço na mídia! Não vi o ensaio então nem posso problematizar o ensaio em si.

  4. Cara que texto incrível! É muito chato ouvir: “Você tem um rosto lindo, mas é gorda!” cara, a gente só quer ser feliz e namoral me acho linda do jeito que eu sou. Amei o texto de verdade!

  5. Gente, que texto incrível! Quando eu era pequena, chorava por ser gorda. Eu sofri bastante com isso, sabe? Acho que hoje eu aceitaria melhor. Só que eu era criança, não tinha uma cabeça aberta – eu simplesmente aceitava que o “certo” era ser magra. Hoje estou feliz do jeito que sou, parei de me importar com a opinião alheia. E eu acho que isso é o mais importante.
    Mas voltando ao assunto do post, também não acho que isso seja representar. Para mim, esse julgamento só vai acabar, mesmo, quando pararem de falar “ela é gorda MAS é bonita”. Como assim, “mas”? Esse tipo de coisa só dá a entender que ser gordo é sinônimo de ser feio. O que é um absurdo.
    Acho que representar, de fato, é o que você falou: colocar a pessoa no filme/novela, porque ela é uma pessoa. Não precisa de explicações pra isso.

    Beijos e parabéns pelo post! <3

  6. Anna Kcau disse:

    Incrível seu texto! Fora que é até ridículo uma revista como a playboy querer fazer algum tipo de “inclusão” ou “representatividade” se até aquelas mulheres magérrimas são mega photoshopadas nas fotos deles, isso faz todas as mulheres se sentirem imperfeitas… é um padrão de beleza inalcançável!

  7. LIZ, QUE POST ♥
    Pensei exatamente a mesma coisa quando vi o anuncio circulando de uma gordinha na Playboy: Estão apenas objetificando ela por fetiches. Acho que devemos pensar muito sobre figuras de representatividade e cuidar com o que as empresas vem oferecendo, tipo. NEM VOU FALAR DAQUELA LOJA ALLEZIO </3
    Tá fantastico o post, gostei demais e precisamos falar mais disso SIM!

    Beijos amiga!

    http://chocowhovian.blogspot.com.br/

  8. Sim! Precisamos pensar sobre o que aceitamos como representatividade e exigir SIM das marcas uma posição que faça realmente sentido. Aliás, representatividade nada, a única coisa empoderada ali é a sexualização desnecessária e a promoção de alguém por seu corpo… :/

  9. Luciana disse:

    Eu não sou gordinha, na verdade eu sou super magra, fato qual sempre me incomodou desde que eu era criança. Todas nós, independente do físico, magra ou gorda, sofremos com a tal da ditadura da beleza, você tem que ser assim, seu cabelo desse jeito, seu corpo desse modo, e acabamos deixando de nos aceitar como nós somos.

  10. Bianca disse:

    Eu gostei da iniciativa da Playboy, embora também seja necessário encarar isso por outro ponto de vista, como você propôs
    Achei que você trouxe sua opinião de forma lacradora Liz, mesmo para mim que, como eu disse, curti a iniciativa. Geralmente não levam minha opinião sobre isso a sério por eu ser magra e não sentir na pele, mas eu realmente acho a sociedade no geral muito cruel com gordos (especialmente mulheres)

  11. O que falar desse texto maravilhoso? Amei demais!!
    Não vai ser a partir de uma capa da playboy que as pessoas vão mudar o pensamento sobre isto, pelo contrário, só irão objetificar mais ainda o corpo das mulheres!
    Quando será que as pessoas vão entender que somos todos iguais, independente da aparência? 🙁
    Beijos.

  12. Eu amei o texto, parabéns .

  13. Joyce disse:

    Ual, que texto incrível foi esse! Eu super concordo com você. Também sou gordinha, mas não é dessa forma que eu desejo ser vista pelas pessoas. Até parece que uma capa na Playboy vai promover a “igualdade”. Muito bom o seu ponto de vista.

  14. Entre Anas disse:

    Arrasou <3
    Apesar de não ser meu lugar de fala, não vejo como representativo colocar uma mulher gorda na playboy. Até porque, como você falou, é uma revista voltada para o público masculino que objetifica nossos corpos. Penso o mesmo da prostituição, por exemplo. Você disse tudo aqui: "Quer nos naturalizar? Mostra que somos pessoas, nos de protagonismo em séries, filmes e novelas, nos de voz e nos ajude a sair dessa correnteza terrível que é a gordofobia"

    1. Liz Chollet disse:

      Exato, miga! Também penso o mesmo sobre a prostituição e pornô, infelizmente é uma luta bem complicada e ainda MUITO complexa pras pessoas ): <3

  15. Pior que é verdade né? Acho interessante locar uma gorda na playboy para ver se coloca de vez na cabeça do povo de que nos somos lindas e gostosas, e quem sabe ser um passinho a mais. Porém não adiante nada se a revista faz isso só pra vender mais – já ouvi tanto caso de homem que tem “fetiche” por gordas e acha que pode ir dando em cima e as vezes até estuprar já que no pensamento imbecil deles ” elas saem no lucro ” e eu fico tipo: QUE?
    Gostei da sala análise ☺ já vou até compartilhar

  16. Daniele Yui disse:

    Pra mim isso pareceu meio estranho. Não se isso se trata de representatividade mesmo. Concordo com você. Esta sociedade em que vivemos é triste, viu… Feliz Natal, Bjo!

    http://www.pandapixels.com.br

  17. Liz gostei do seu ponto de vista. Acho que ainda temos muito que crescer, entender, aprender sobre o universo da minoria.

    Colocar uma gorda que é linda na capa realmente é legal, super bacana mas concordo que isso também é um desejo de um público masculino, tanto que existe um universo pornografico com gordas.

    A playboy ou qualquer outra revista masculina pode mesmo vender a ideia de arte, nu artístico, mas o resultado final é o mesmo: excitar homens!

    Vamos continuar lutando para que não precisemos mais justificar que somos gordas e ter que nos orgulhar de coisas que deveriam ser normais!

    Beijos, Má

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